Ana, é dessas pessoas-árvores: nascem, crescem, reproduzem e morrem, só que no mesmo lugar, e no caso de Ana, por vontade própria. Também é dessas pessoas que não querem ser observadas com zoom, nem serem vistas de loooonge. Ana se esquiva de qualquer par de olhos, e sim, andaria com um saco na cabeça, se isso não chamasse tanta atenção. Responderia “invisibilidade”, se você a questionasse sobre qual super poder escolheria. Anda com delicadeza, vive como se qualquer movimento brusco fizesse sua vida girar de cabeça para baixo. Não fazia questão de demonstrar a opinião, dã, isso não mudaria em absolutamente NADA no mundo. Sem decotes, sem maquiagem muito notável, sem palavrões, sem saltos, atitude??? Nem pensar! Vive com um livro na cara, mais pra servir de escudo, que pra se aventurar nas palavras alheias. Só não queria que notassem sua existência, meu deus, era pedir demais??
Saia justa, batom vermelho, decote, salto alto e atitude,
MUITA atitude, essa é Luíza. Vive levando quedas pela night, e não se importa, tem sempre um “dane-se” na ponta da língua e está pronta pra usá-lo. Mantém a
postura, anda escandalosamente, não ignora os olhares de aversão, muito
menos os de ai-se-eu-te-pego. Luíza é desse tipo de gente que não aguenta ficar
parada por mais de 5 segundos e que se pudesse ter um flash de luz amarela sob
sua cabeça, não o recusaria.
Aquele parado do lado direito da rua é o ônibus (ônibus????), porque se há algo em comum entre Luíza e Ana (além de serem mulheres) é o fato de que são pobres. Na porta do ônibus, de óculos e em um relacionamento muito sério com o palito que espetava seus dentes, está Manoel, atirado, nada romântico e um tanto comum, Manoel é o cara qualquer da estória.
Ana e Luiza costumam pegar o mesmo ônibus aos sábados, para rumos totalmente diferentes, e não pense que entre as duas irá se desenvolver uma dessas amizades de ponto de ônibus, muito pelo contrário, as duas vivam se alfinetando em silêncio, uma com o olhar (lógico, essa é Luiza), a outra com a mente. O fato é que nesse sábado, o ônibus lotado fez com que as duas mulheres se postassem uma ao lado da outra, em pé, e entre elas, Manoel. Manoel não tem preferência, qualquer uma faz o seu tipo, concluiu que sairia do ônibus menos homem se não fizesse algo (vai entender), tratou de descobrir com as mãos o que havia por baixo da pequena saia de Luiza, ao passo que tentava se fundir à Ana, quase como uma esponja num prato, com a vantagem de uma mão esquerda, e a teoria de "Um ônibus absurdamente lotado e ~balançante~". Ana tentava se esquivar ao máximo e estava vermelha feito um tomate, um tomate raivoso. Luiza passou a se segurar com uma mão só, transferindo a outra levemente de um desses ferros que o ônibus comporta, para a cara descarada de Manoel. Luiza, em seu melhor estilo tô-nem-aí, começou a berrar palavrões, que prefiro nem mencionar aqui, nos ouvidos do canalha, enquanto todas as outras mulheres a olhavam com ar de "que mulher vulgar, gente", se tivessem em suas mãos belos tricôs, a imagem seria perfeita. Ana via em Luiza, por hora, uma heroína, e pra não ficar por baixo, decidiu fazer algo que sempre teve vontade, enfiou, com uma força anormal e um baita sorriso na cara, sua bela sapatilha rosa naquele canto que Manoel devia julgar mais importante em qualquer homem que se preze. Exato.
Desceram as duas do ônibus, não de mãos dadas, nem sorridentes, muito menos colegas, mas satisfeitas, mesmo em meio a uma multidão de "Ana é muito quieta, por isso que esse tipo de coisa acontece, precisa ser mais forte nas atitudes" ou "Luiza pede por esse tipo de coisa, olha a saia da criatura! Tenho um cinto mais largo do que isto".
Ana não não tinha de ser mais forte nas palavras e/ou atitudes, muito menos Luiza tinha de ser, bem... menos Luiza. Eram só as pessoas que tinham de encarar os fatos como eles eram, saber diferenciar uma pessoa pelo seu respectivo caráter, não pelo seu decote ou por seu excesso de discrição. Era só que Manoel tinha de aprender que respeito é mais que uma palavra, que a saia justa da Luiza nada tinha a ver com ele, muito menos a "falta de presença" da Ana. Por que é que a gente diz pra Luiza usar uma saia mais longa, e um decote menor, ao invés de dizer pra o Manoel que não se deve abusar de alguém? São só os velhos conceitos errados, as velhas mentes enferrujadas, são só os mesmos julgamentos sem fundo, sem causa.

13 Pombos-correios:
Me pareceu um fato verídico..
adoreiadoreiadorei! sério mesmo, fico muito puta (sem trocadilho) com esses homens que passam a mão, insultam e jogam cantadas para mulheres no meio da rua. insultar e passar a mão, nunca; cantadas, só em baladas e olhe lá - e caso seja recusada, não insista. se esse mal fosse cortado pela raiz, o número de estupros cairia pela metade, aposto - afinal, é aí que está o problema: nesse "se sentir menos homem".
Adorei! Você escreve muito bem.
Foi baseado em fatos reais?
Olha, concordo plenamente com você, quer olhar olhe mas encostar é uma coisa completamente diferente, eu tenho uma repulsa enorme por homens que fazem isso...enfim.
abraço!
E eu realmente pensei que fosse uma história de um romance num ônibus. Conhecendo seu blog a um tempo, não deveria ter pensando nisso. rs
A estória se não é baseada em fatos reais, é verdadeira em sua mensagem, por que nós não olhamos de outra forma para uma situação dessas, como você disse, por que a gente diz pra Luiza vestir uma saia maior e não fala nada ao tal do Manoel *canalha*?! Infelizmente, esses conceitos errados ainda existem, e certas mulheres e pessoas em geral se conformam com isso.
Infelizmente.
Você tem mesmo O céu está em todo lugar né? Quero muito ler esse livro *O* Já posso dizer que AMEI seu comentário no ultimo post lá no blog né?! *___________*
Beijos
Já me apaixonei por esse seu espaço, adorei, você escreve muito bem!
Disse tudo, julgamos errado os outros pelo que eles aparentar ser, Luzia seria na cabeça da grande maioria aquela garota que sai com dez, transa com todos e rouba o marido das Anas que também na cabeça dos outros é aquela mulher fiel, mãe exemplar, ótima cozinheira e dona de casa, só sai para ir a Igreja ou supermercado, vez ou outro no colégio das crianças... E Manoel? Ah, esse pra todos é apenas homem, e homem é sempre cafajeste, isso explica tudo. Explica? Claro que não. Essa nossa mania de mantermos a cabeça no que acreditavam nossos avós, bisavós...
Esse texto ficou demais, amiga. Você sempre arrasa quando posta. Coisa linda!
Também acho que não precisa alguém mudar o eu jeito, só para ser respeitada. Acho que ninguem é idiota, todo mundo sabe que respeito é uma das palavras mais importantes e todos devemos usá-la. É uma pena que a imagem ainda fale mais alto do que a personalidade da pessoa.
Beijos,
Monique <3
Oi!
Bom, desculpa estar mandando este comentário, mas é que com esta mudança do GFC, acabou sumindo meu gadget antigo e gostaria muito que você me seguisse novamente para não perdermos os contato, o que acha? (:
Um beijão,
Pronome Interrogativo.
http://www.pronomeinterrogativo.com
O texto ficou incrível, minha opinião meio que não bate com a sua, eu penso que ela devia usar uma saia mais longa, não por conceito, mas porque homens são burros e animais, mas você defendeu a sua opinião perfeitamente, parabéns, me encantei com o seu texto.;
É muito fácil falar e criticar a pobre coitada que gosta de se vestir com menos ou a toda recatada. A sociedade parece simplesmente querer ignorar o verdadeiro culpado.
Tratam a libido e a falta de respeito como coisas normais. É quase como esses pastores dizendo que as mulheres tem que sofrer porque nasceram do pecado.
Deprimente. Adorei o texto, me encontrei nele. Encontrei a minha opinião nele de uma forma que eu não saberia expressar.
Beijos.
Gostei muito, muito mesmo!
Adorei! Quando comecei a ler, primeiramente tentei identificar qual das duas personagens mais se parecia comigo e acabei descobrindo que sou uma mistura nada homogênea de ambas, cada dia de uma maneira.
Você precisa urgentemente escrever um livro, mocinha!
Nossa, isso lembrou-me muito a Marcha das Vadias (não se engane pelo nome) que começou no Canadá e aconteceu em São Paulo. Um professor, no Canadá, estava falando sobre segurança em uma faculdade e disse que as mulheres não deviam se vestir de maneira vulgar para evitar serem atacadas por pervertidos. Foi então que aconteceu uma revolta, afinal, por que nós mulheres devemos nos moldar aos modelos machistas? Por que o culpado não é o estuprador? É sempre culpa da mulher. Então elas decidiram fazer uma marcha e lutar contra esse preconceito. Adorei seu texto, fala muito bem disso. Não é questão de feminismo, é questão de respeito mesmo.
As vezes me dá vontade de desintegrar por viver num mundo e numa sociedade em que, pleno século 21 ainda pensa desse jeito. Faço o tipo que morre de desgosto. Muito bom seu texto! Mesmo!
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